Doces de Pelotas- Patrimônio Cultural da Humanidade
LEI Nº 11.919, DE 06 DE JUNHO DE 2003.
Declara integrante do patrimônio cultural do Estado os doces artesanais de Pelotas.
Pelotas - Capital Nacional do Doce
A cidade de Pelotas tornou-se nacionalmente conhecida como a "Capital nacional do Doce" pela excelência, exclusividade e qualidade dos doces que produz. Com uma produção que inclusive tem sido utilizada em eventos oficiais da República, a doçaria de Pelotas conta com produtos de forte tradição artesanal, como os bem-casados, ninhos, pastéis de Santa Clara, olho de sogra, dentre tantos outros.
A importância do doce na definição cultural da cidade é tão acentuada que desde 1986 realiza-se a FENADOCE – Feira Nacional do Doce – contando, hoje, com a visitação de mais de trezentas mil pessoas.
A grande expansão das charqueadas fez com que Pelotas fosse considerada a verdadeira capital econômica da provÃncia, vindo a se envolver em todas as grandes causas cÃvicas" (VAROTO, Renato Luiz Mello e SOARES, Leonor Almeida de Souza. Lendo Pelotas. 3ªed. rev. e ampl. Ed. Universitária UFPel, Pelotas, 1997, p.37).
É exatamente em torno dessas charqueadas que se desenvolveu a doçaria que viria a consagrar a arte do manejo do açúcar que, ao contrário do
afirmado por alguns, não se opôs ao sal: completaram-se. Sal e açúcar marcaram definitivamente a cultura pelotense.
"Pelotas pode ser considerada, enfim, sem nenhum exagero, a terra do doce, do mesmo modo que foi o berço das charqueadas, dos salões faustosos, das grandes damas, dos barões beneméritos, dos poetas românticos" ( MAGALHÃES, Mário Osório. Doces de Pelotas: Tradição e História. Ed. Armazém Literário. Pelotas, 2001, p.59).
Na obra supra referida MAGALHÃES destaca referências aos doces de Pelotas por João Simões Lopes Netto, Machado de Assis, Gilberto Freyre, Júlia Lopes de Almeida, Berilo Neves, Athos Damasceno, Érico VerÃssimo, numa demonstração de que de longo tempo tal arte ultrapassou as fronteiras do estado do Rio Grande do Sul.
Histórico dos Doces de Pelotas
É difÃcil definir quando exatamente os doces surgiram em Pelotas. Sabe−se que sua origem teve influência de Portugal, paÃs onde era intensa a produção de tais guloseimas. Os doces foram introduzidos pelos lusos por volta do inÃcio do século XIX e em Pelotas aproximadamente na década de 1860, quando começa o perÃodo de apogeu do municÃpio de Pelotas. De 1860 a 1890 os investimentos dos charqueadores foram intensos em atividades de cunho cultural que caracterizaram, durante anos, Pelotas como a cidade mais aristocrática do Estado do Rio Grande do Sul (RS).
Melhores condições para a dedicação ao lazer dos cidadãos pelotenses eram provenientes principalmente pelo acúmulo de capital das atividades saladeiris as quais ocorriam apenas entre os meses de novembro a abril. O constante contato com a Europa através da exportação do charque, cujos navios transportadores retornavam com os mais variados produtos e objetos, permitiu que a sociedade pelotense desenvolvesse práticas semelhantes à quelas que estavam presentes apenas nos modernos paÃses europeus. Alguns estudos históricos comprovaram que, antes do ano de 1860, já havia indÃcios de salas de leitura e publicação de livros e jornais na cidade.
Os saraus, companhias teatrais e as recitas musicais, entre outras atividades, tinham programações praticamente diárias no interior da arquitetura grandiosa de prédios e casarões. Os doces eram servidos nos intervalos destes saraus envolvidos em papéis de seda rendados e franjados. Sua produção era realizada de maneira caseira pelas mulheres e suas mucamas. Como existiam rigorosas regras de etiqueta na época, muitas atividades não poderiam ser desenvolvidas ao ar livre; as mulheres passaram então a praticar hábitos caseiros, com reconhecido destaque na culinária, bordado, música e pintura. Este fato, portanto, contribuiu para a intensa produção e aprimoramento dos doces em Pelotas.
O açúcar utilizado nas mais variadas sobremesas, como os camafeus, bem−casados, fios−de−ovos, papos−de−anjo, ninhos e os pastéis de Santa Clara,
era proveniente da região Nordeste do Brasil em troca do charque. Temerosas pela escassez deste ingrediente essencial, as escravas passaram a diminuir a quantidade de açúcar na produção dos doces, transformação a qual trouxe um diferencial que agradou muito ao paladar dos consumidores da época.
Outro fato que também contribuiu para a grande produção e consumo de doces em Pelotas foram as próprias charqueadas. Conforme [Magalhães, 2001], a sociedade pelotense procurou abrandar sua imagem rústica saladeiril através da adoção de requintados costumes, constantes atividades intelectuais e imponentes construções. Neste contexto é que o doce se insere, embora não como protagonista principal, pois a economia estava baseada no trabalho dos negros, na punição do escravo, na degola do boi e nas mantas de carne sob o calor do sol − atividades tipicamente das charqueadas. Enfim, Pelotas estava imersa no ciclo do sal, onde os rituais de castigo e de brutalidade eram amenizados pela produção de poesias rimadas, cortesias, amabilidades, saudações solenes e dedicatórias rebuscadas e veladamente sensuais.
Entre diversos fatores, o fim da escravidão auxiliou no declÃneo das charqueadas locais assim como o surgimento de uma maior concorrência devido a produção de charque em outros municÃpios do RS. O surgimento dos frigorÃficos que dispensavam o processo de salga da carne acabaram fornecendo subsÃdios para uma forte projeção nacional dos doces pelotenses. A partir da década de 1920, passou−se a divulgar comercialmente em todo o Brasil a tradição doceira que até então estava restrita ao interior dos casarões. Aproximadamente nesta mesma época, os imigrantes alemães, pomeranos e franceses que viviam em Pelotas passaram a cultivar frutas de clima temperado − principalmente o pêssego − na região colonial de Pelotas. Esta, e demais frutas, começaram a ser comercializadas ao natural e também na forma de doces, geléias, conservas e pastas.
Logo, os processos que envolveram o açúcar e o sal foram complementares para o progresso econômico e cultural de Pelotas. Embora a indústria local de doces e conservas ainda não tenha recuperado o desenvolvimento registrado no municÃpio entre 1860 a 1890, esta é uma tradição a qual faz parte da formação da identidade histórica da cidade que continua sendo estimulada em grande escala.
Muitas receitas portuguesas trazidas pelos colonizadores e pelos navios transportadores do charque ainda são utilizadas pelas doceiras pelotenses. As transformações e criações de novas guloseimas agregaram ainda mais qualidade e valor aos produtos.
Muito além do açúcar, dos ovos e da farinha, a arte de fazer o doce - e todo o universo geográfico, étnico e histórico tornam os doces de Pelotas considerados jóias a serem apreciadas pelos mais apurados paladares.
Referência Bibliográfica
Magalhães, Mário Osório: Doces de Pelotas − Tradição e História. Armazém Literário, Pelotas, 2001


